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Pesquisa da UFLA e do IF Sudeste MG investigou efeitos do corante doméstico Direct Red 09 em organismos terrestres visando detectar eco(geno)toxicidade

Professor do campus Barbacena é co-autor do artigo internacional publicado

Em ambientes domésticos, corantes têxteis são frequentemente usados para tingir ou restaurar roupas, como forma de reaproveitamento. Após o uso, o excedente geralmente é descartado no sistema de esgoto e segue até as estações de tratamento, onde a remoção pode ser apenas parcial. A partir daí, esses compostos podem chegar a ambientes terrestres por diferentes caminhos: pelo lodo/biossólidos gerado no tratamento quando é destinado ao solo, pelo reuso ou lançamento de efluentes que podem infiltrar e atingir áreas em terra, e também pelo acúmulo em resíduos que são depositados em aterros, com possibilidade de lixiviação (o conhecido “chorume” que pode carregar as substâncias ao solo).

Nesse contexto, pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais – Campus Barbacena publicaram no Journal of Toxicology and Environmental Health, Part A (online em 02 de janeiro de 2026, JCR = 1,9) o artigo “Eco(geno)toxicological effects of the dye Direct Red 09 on plants and soil invertebrates: a preliminary terrestrial risk assessment based on species sensitivity distributions”. Estes pesquisadores foram Leonardo Mendes da Silva, Vanessa de Souza Vieira Dutra, Ana Letícia Borgo, Carla Maria Souza Nascimento, Fábio Junio da Silva, Maria Eduarda Magalhães, José Emílio Zanzirolani de Oliveira e Larissa Fonseca Andrade Vieira. O estudo avaliou os efeitos do corante de uso doméstico Direct Red 09 em duas plantas (Allium cepa e Cenchrus americanus), um nematódeo (Panagrellus redivivus) e um oligoqueta (Enchytraeus crypticus), integrando esses novos resultados com dados já publicados de alface (Lactuca sativa) visando tornar a avaliação de risco mais robusta.

Nos resultados, os efeitos foram mais evidentes em plantas. Em Cenchrus americanus observou-se fitotoxicidade, principalmente com redução do crescimento (raiz e parte aérea). Em Allium cepa, além de alterações no desenvolvimento, foram detectadas respostas citogenotóxicas, com redução do índice mitótico e aumento da frequência de micronúcleos, sugerindo interferência na divisão celular e potencial efeito genotóxico. Entre os invertebrados do solo, o nematódeo Panagrellus redivivus apresentou imobilização em concentrações intermediárias, enquanto o oligoqueta Enchytraeus crypticus mostrou pouca resposta em curto prazo, indicando baixa toxicidade aguda nas condições do ensaio.

Para traduzir esses resultados em números úteis à proteção ambiental, os autores utilizaram a SSD (Species Sensitivity Distribution), uma curva que organiza a sensibilidade de várias espécies ao contaminante, em outras palavras, mostra quem é mais sensível e quem é mais tolerante. A partir dela, calcula-se a HC5 (Hazard Concentration 5%), um valor de referência associado a uma concentração em que apenas pequena parcela das espécies mais sensíveis (cerca de 5%) tende a ser afetada, servindo como base para proteger aproximadamente 95% das espécies. Em seguida, deriva-se a PNEC (Predicted No-Effect Concentration), que é a concentração predita sem efeito, usada como limite protetivo em avaliações de risco. Integrando os novos dados do estudo com resultados previamente publicados, os autores reportaram o gradiente de sensibilidade Allium cepa > Lactuca sativa > Cenchrus americanus > Panagrellus redivivivus > Enchytraeus crypticus, além de HC5 = 1,79 g/L e PNEC = 0,089 g/L.

De forma geral, o estudo sugere que o risco para comunidades terrestres tende a ser baixo, pois concentrações nessa ordem provavelmente não ocorrem no campo; ainda assim, os autores destacam que pontos de descarte e exposições prolongadas podem mudar esse cenário, de modo que o risco não pode ser descartado, reforçando a necessidade de estudos mais realistas (com solos naturais, considerando processos como sorção/dessorção e endpoints crônicos). Além disso, o trabalho chama atenção para uma lacuna regulatória: no Brasil e em outros países, corantes têxteis ainda não contam com valores-guia específicos para solo/água e acabam sendo enquadrados em categorias genéricas relacionadas à carga orgânica.

O acesso do artigo na íntegra é: https://doi.org/10.1080/15287394.2025.2609285

Fonte: Leonardo Mendes da Silva, José Emílio Zanzirolani de Oliveira

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