Geral
Preconceito disfarçado de piada: entenda o que é “racismo recreativo” e como combatê-lo
Quando o humorista Léo Lins foi condenado, em julho de 2025, por piadas preconceituosas contra negros, pessoas com deficiência, soropositivos e outros grupos; ou quando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi responsabilizado por definir como “criatório de baratas” o cabelo crespo de um apoiador (entre outras ofensas), houve quem considerasse as decisões judiciais como “exagero” ou até mesmo “censura”. Mas o que tais indivíduos provavelmente não sabem é que este tipo de preconceito, denominado racismo recreativo, causa muito mais danos do que pode parecer. E nem seria necessário adentrar o mérito de sentimentos e da dor humana, com todos os seus efeitos psicossociais imensuráveis. Uma análise objetiva e baseada em fatos históricos já evidencia os danos deste tipo de ação criminosa, conforme apresentado a seguir.
Arraigado na sociedade e sutilmente disfarçado, o racismo recreativo é um conjunto de práticas sociais que operam por meio do uso estratégico de humor hostil e racista. Com o fim da escravidão, os brasileiros encontraram nesta forma de expressão uma via intermediária para exteriorizar seu preconceito racial, conforme analisa estudo publicado na revista Direito e Práxis, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Assim, o que o conteúdo destas “piadas” reproduz? O pensamento retrógrado, equivocado e criminoso no qual se baseou a escravidão, ou seja, a suposta inferioridade moral, intelectual, estética, biológica, cultural de minorias raciais. Por consequência, manifestar preconceito disfarçado de piada equivale a reproduzir e perpetuar um erro histórico e catastrófico que deveria mesmo ser apagado (fosse isto minimamente possível).
“O humor racista é a antítese da fraternidade” - Augusto C. L. de Resende
O racismo recreativo está presente em estádios de futebol contra jogadores negros, piadas sexualizadas quanto às mulheres negras e está presente também no ambiente de trabalho. Mas, quando o assunto é racismo, de qualquer um de seus lamentáveis tipos, o ambiente onde ele se faz majoritariamente presente é a escola, como apontam dados da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC). Portanto, o desafio do IF Sudeste MG faz-se tão grande quanto seu compromisso com uma educação antirracista. Como instituição educacional pública de referência, o Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais não apenas nega-se a reproduzir memórias de um triste passado (passado?), como atua permanentemente para combater todo tipo de preconceito dentro e fora da instituição. E a principal estratégia utilizada são os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABIs), organismos instituídos regimentalmente em 2020 e presentes em todos os campi.
Na prática: como atuam os Neabis no IF Sudeste MG
Mais que estudar e difundir conhecimento, os Neabis atuam como multiplicadores de educação para a convivência e respeito da diversidade, contribuindo para a equidade racial e promoção da educação das relações étnico-raciais (incluindo afrodescendentes, quilombolas, indígenas e seus remanescentes).
No caso do Campus Rio Pomba, por exemplo, o Neabi é formado por um grupo de servidores e estudantes, que estão abertos à participação da comunidade e de movimentos sociais ou associações, para promover eventos, projetos ou outras ações de formação e valorização da cultura afro-brasileira e indígena.
Também é por meio de eventos que o Neabi do Campus Avançado Ubá ganha maior expressão: como exemplo, estão o Afrofest e os eventos que ocorrem durante as comemorações do Dia da Consciência Negra, como o Encontro de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, que teve sua primeira edição realizada nesta semana (17 a 19/11). Ações presenciais similares são direcionadas a estudantes do Programa Partiu IF na unidade ubaense.
No campus Bom Sucesso, as rodas de conversa colaboram para a conscientização da comunidade acadêmica, bem como outros eventos que discutem a temática racial, mas o Núcleo desta unidade também atua na formação dos servidores e em projetos de extensão diversos. Nesta mesma linha, segue o Neabi - Campus Muriaé, que educa por projetos, trabalha a informação e até promove pesquisas. “A promoção da educação antirracista é fundamental. Contudo, muitos servidores não participam das palestras e dos cursos (...). É preciso que algumas ações sejam de participação obrigatória”, observa o professor Natalino da Silva de Oliveira, então presidente do referido Núcleo.
As ações e projetos do Neabi Campus Santos Dumont têm por objetivo conscientizar a comunidade escolar e externa das questões da negritude, observando a necessidade histórica de apresentar a população negra de forma digna, gerando reconhecimento, pertencimento e empoderamento. É o que explica a presidente deste Núcleo, Iara Nascimento. “Com isso, buscamos desenvolver junto a comunidade o senso crítico necessário para reconhecer onde o racismo está presente e ter meios de combatê-lo”, resumiu ela.
Dentre as ações mais específicas do IF Sudeste MG, podem ser citadas algumas realizadas pelo Neabi do Campus Barbacena em 2025:
- "13 de maio: Que isso, d. Isabel?" (sobre a história das religiões de matriz africana);
- projeto pedagógico antirracista com as licenciaturas de Educação Física e Ciências Biológicas;
- palestra sobre o racismo estrutural, as penalidades do racismo e a obrigatoriedade do ensino de história da África e dos africanos e a história dos indígenas (ação especialmente direcionada a professores)
- "Diálogos sobre as religiões afrodescendentes em Barbacena, MG" (foto)
O Campus Barbacena possui uma biblioteca antirracista. Ali são organizadas peças de teatro a partir de obras infantojuvenis, que trabalham valores e normas ligados à herança cultural e existencial de povos africanos e afrodescendentes. Alguns deles: circularidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, cooperativismo/comunitarismo, ancestralidade, memória, ludicidade, energia vital/axé e oralidade. “Uma vez que a educação é fundamental para enfrentar o racismo recreativo, por meio do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira, valorizando a população negra e combatendo a desumanização”, enfatizou a presidente do Neabi barbacenense, Sirléia Arantes.

Neabis respondem...
Por serem referência em educação antirracista, o IF Sudeste MG (por meio de sua Coordenação-Geral de Comunicação e Marketing) convidou os Neabis a somarem forças contra a ignorância sobre racismo recreativo. Confira a seguir:
1 - Como podemos reconhecer uma situação de racismo recreativo, especialmente no ambiente de trabalho?
Segundo o Neabi - Campus Muriaé, qualquer atitude que ofenda uma pessoa e que a ofensa possua relação com a cor da pele ou com outros traços fenotípicos que identificam a pessoa negra é caracterizada como um preconceito de cor (racismo). “O denominado racismo ‘recreativo’ só é recreativo para quem o prática. A vítima é acometida de sofrimento psicológico que afeta bastante sua atuação no meio em que o ato racista ocorreu”, ponderou.
2 - Onde o racismo recreativo mais aparece? E por que muitas pessoas se calam diante dele ou o validam?
O racismo recreativo manifesta-se com mais frequência em momentos de lazer, em interações cotidianas e nas redes sociais. Como muitas vezes assume a forma de "piadas", as pessoas ou permanecem em silêncio para evitar ofensas ou simplesmente optam por não participar, sem se darem conta das consequências que isso possa ter para os outros. É o que explica a presidente do Neabi - Campus Bom Sucesso, Julimara Paiva.
3 - Como se deve reagir ao testemunhar uma situação de racismo recreativo?
“Denúncia”. A presidente do Neabi do Campus São João del-Rei, Rosana Machado, explica que um dos desejos do movimento negro é de que tanto pessoas negras quanto brancas passem a denunciar situações de racismo. No caso destes últimos, trata-se de construir uma branquitude crítica, que se opõe ativamente à opressão racial.
Mas, “no geral, vemos que as pessoas não estão preparadas para reagir, inclusive quando eventualmente uma pessoa negra faz piadas racistas”, observou o presidente do Neabi - Campus Rio Pomba, Urias Gonçalves. Por isso, ele enxerga a necessidade de formação dos servidores, especialmente os professores e estudantes: “é preciso criar um tipo de ‘vacina’ capaz de prepará-los para se comportar frente a situações diversas de racismo.
4 - É possível “desculpar” o autor de uma piada ou brincadeira que se utilize de estereótipos raciais, quando não há intenção de depreciar ou discriminar?
“É impossível isentar de culpa o(a) autor(a) de piadas/brincadeiras que se utilizem de estereótipos raciais, uma vez que tal ação pode ser retirada de contexto e causar danos significativos à comunidade interna e externa”, responde Fernando Vianini, presidente do Neabi - Campus Avançado Ubá. De acordo com a Revista Direito e Práxis, o Poder Judiciário deve estar comprometido com a dimensão emancipadora da fraternidade, no sentido que os juízes deverão interpretar e aplicar as normas jurídicas de modo a impulsionar a emancipação socioeconômica e política das minorias raciais.
5 - Sabemos que determinados humoristas, além de alegarem "ausência de intenção racista” , se dizem protegidos pelo direito à liberdade de expressão. Isso faz sentido?
“Atos ou falas que geram constrangimento a outros não devem ser considerados entretenimento e nem amparados pela ‘liberdade de expressão’. É preciso ter o discernimento de onde o seu direito invade o de outra pessoa, de grupos e comunidades. E quando se trata de racismo recreativo essa linha é muito tênue, não devemos banalizar ou normalizar o racismo como ‘brincadeira’ ou não considerar a intenção de quem o pratica”, recomenda a presidente do Neabi - Campus Santos Dumont, Iara Nascimento.
6 - O que falta para que finalmente a sociedade deixe de perpetuar estereótipos negativos e a ideia de hierarquia racial?
Para Rosana Machado, o processo educativo é a chave, pois promove a conscientização. O chamado “letramento racial” refere-se à habilidade de compreender, analisar e interpretar criticamente questões relacionadas à raça, etnia e diversidade cultural por meio da leitura e da escrita. Não se trata somente do simples aprendizado das letras e palavras; envolve a capacidade de compreender o contexto social, histórico e cultural das questões raciais.
7 - O que é “pacto narcísico da branquitude”?
“É o reconhecimento de que pessoas brancas, no seu meio, se protegem”, define a professora Rosana. Assim, quebrar este pacto seria uma arma de absoluta importância contra o racismo recreativo. “Este tipo de racismo existe tanto como uma ofensa direta - fazer uma ‘piada’ direcionada à pessoa negra - quanto de forma indireta, que é quando essa pessoa não está presente naquele meio e você fala dela (no ambiente de trabalho, por exemplo). Você destrói a humanidade dessa pessoa, deslegitima-a em uma perspectiva covarde, já que ela não está lá para se manifestar”. Além disso, a piada é capaz de permanecer no imaginário de quem ouviu a ofensa, segundo Rosana, dificultando inclusive que a pessoa ofendida seja encarada como uma pessoa séria dentro do ambiente de trabalho.
Interrompa falas racistas! Abstenha-se do racismo recreativo e de todos os outros. E aprenda mais sobre a luta antirracista em nossa página no Instagram: @ifsudestemg. Nela, o presidente do Neabi do Campus Manhuaçu, Loham Santos, explica por que existe o Dia da Consciência Negra.
Fontes: LNCC (Gov.br); Revista Direito e Práxis - “Racismo recreativo, liberdade de expressão e fraternidade: algumas aproximações”; O Globo; CNN Brasil; G1; Educa Mais
Outros conteúdos recomendados:
-
“Como escolas podem fomentar uma educação antirracista” (Nexo Jornal)
-
Livro: “Racismo recreativo”, por Adilson Moreira. Ed. Pólen livros.





Na prática: como atuam os Neabis no IF Sudeste MG